terça-feira, 23 de outubro de 2012

Budapest


Eu estava imersa em tamanho estranhamento e caminhava na mesma rua de um lado para o outro sem nem perceber os movimentos. A cidade agitada: uma cirene, uma buzina, meu corpo sofrendo os sete pecados - o coração no Brasil. Procurava quase desesperadamente um rosto que tivesse qualquer traço parecido. Queria tanto falar, mas ninguém teria o desprendimento de olhar nos olhos de uma desconhecida e arriscar o encontro, nem mesmo eu. Eu estava muito dispersa e o sonho de Budapest agora parecia o avesso. Suspeitei: a vida pode ser muito vazia, solitária e sem grandes magias. Respeitei o quadro.

domingo, 7 de outubro de 2012

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.



Dia 58

" Vai meu irmão, pega esse avião..." E toda vez que eu decido, aquele de tão antigo, quase amigo,
 o bicho papão, ele se derrete, se desmancha todo apontando o próximo martírio, aplaudindo o que já foi.
" A vida é luta reinhida que as fracos abate e aos fortes só faz exaltar, viver é lutar." Gonçalves Dias

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.




Dia tal...

Tem coisas que morreram mas se esqueceram de ir embora de mim.
Há lugares que não mais me pertecem, tidos em antigos baús,
remendam meus destinos na cor de outros vestidos.

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.


Dia 39, 40,41,42,43,44,45,46,47....

Florianópolis nasceu, cresceu, viveu, tanto que esqueceu de contar!

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.



Dia 36, trinta e sete, 38.

Tem certas vezes que viajar é esquecer, é nem lembrar de notar,
de escolher um querer, é esvair-se nas horas, acontecer.





terça-feira, 2 de outubro de 2012

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.



Dia 29

Minha vida em cada casa.

Dia 30

Meus dias tem sido jornais, correm folhas impressas nas notas que ouço tocar. Alguns encontros de agora merecem trajetórias continuas, tempo seguido na pausa, e eu querendo partir, e eu querendo ficar. Mas é que todo dia o sol se põe, a lua nasce e brilha no escuro, e o fim acontece em todo movimento. Saber o nome do fim, esse é meu intento e assim foi indo, seguindo e quanto mais intimo o encontro, o calor da troca, mais infemo o segredo do fim. Sou eu que penso o fim ou o fim acontece no prelúdio do gozo? Deixei Maringá há algumas horas atrás e vim ter comigo outra noite de amor. Por um instante não resisti, quis acordar na noite anterior e comeceia criar um novo fim na vontade de voltar.

Dia 31

Cheguei em Rondon. Chegar me fascina, quando chego realizo o fim da viajem. Em Maringá fez calor, friozinho à noite, teve dia de estudo, de relembrar psicologia, se embriagar em filosofias pela madrugada, viver. No caminho da volta parei para conhecer Cascavel , cidade que já visitei zilhões de vezes, mas nunca à quis saber de perto. Capital do Oeste do Paraná, 5º cidade mais populosa do estado, habitada por indios em mil quinhentos e bolinha. Chegar em Cascavel como viajante fez toda diferença. 

Dia 32

Acordei para pensar sobre sonhos, escrever e elaborar minha fala na reunião de um grupo de mulheres desta pequena cidade que estou, Rondon.

Dia 33

Dia de organizar, ajeitar a vida de passo à passo. Pasta de música, albúns separados, sons retomados. Fotos também remanejadas, viajens, pessoas, lugares. Muita coisa deletada e a alma quase lavada.

Dia 34

Tantos jeitos de fazer acontecer...Todos com direito de assim permanecer. Entre uma cidade e outra o vento do sul ao norte-leste, o sotaque, e no povo a sombra do fortalecimento. Ceará. Água de côco aqui é mais doce que sul do país.

Dia 35

O medo do afastamento, a escolha do próprio horizonte, tratada, sentida, moldada. O caminho do desejo, do desejo que eu desejo me realizando em perspectiva. Hoje decidi. A pauta da conversa: evolução, tecnologia, tempo, desenvolvimento. Sentindo-me ligeiramente atrasada com qualquer coisa que venha depois do modernismo, comuniquei aos meus pais que eu queria seguir, que já me via longe, tão perto de partir e que em poucos anos eu seria novamente outra nova Daniele, desfrutando sabores, desejos, dores e tormentos que nem ouso adivinhar o gosto agora. A gente conversou sobre a vida. Gosto de conversar sobre a vida, mas quando é que eu tenho outro tema que realmente interessa? 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Brasil: 59 Noites, relatos em domingos.


                                                                          Photo by Daniele Eckstein

Dia 22

Quando eu penso que alguns jeitos em mim já se foram, vem tempos em tempos o vestígio do mesmo espaço procurando lugar no meio-jeito de amar. A vida não é o que penso, embora eu seja somente aquilo que invento. Hoje tive meus lábios à escutar os teus atos.

Dia 23

A viajem começou depois do almoço e seguiria até o anoitecer. Eramos 4 dentro do carro, entre conversas, sentimentos e quietude, saimos do Paraná em direção à Santa Catarina, logo ali, um poco pra lá da divisa, chegariamos no Sítio e ficariamos por 2 dias isolados do que quer que move uma cidade. Estavamos os 4 felizes, mergulhados um no outro, sem perder de vista nossas própias ambições. A noite, de nuvens brancas cortando o asfalto, apontava o fim da viajem. Etramos em estrada de terra por mais 13km. Chegamos, entramos na casa decorada de flores, e então começou a chover.

Dia 24

Sabe aqueles dias que você se esforça para acordar, o olho pesa e você nem sabe pra que lado está a porta de tão profundo que o sono está. Tentei levantar cedo, o corpo não respondeu à favor e eu durmi até a hora do café. Hoje também foi dia de aprender violão, e esse foi meu quarto professor, ele tem 10 anos e me ensinou a tocar 'Segredos' do Frejat. Também hoje conversamos sobre o ser humano e a sua independência nas atividades básicas da vida, como fazer a própria comida, limpar o que se suja, lavar a própria roupa, ganhar dinheiro sem delegar nada a ninguém. Houve acordos, controvérsias que giravam em torno da cultura e das características pessoais como motivadora das ações feitas diretas ou indiretamente. Depois do baralho, cada um contou seu tempo no casúlo do seu coração.

Dia 25

Vivi de novo a fase entre o antes e o depois. Hoje fui ser adulta. Meu comportamento de pernas cruzadas deixaram meus pensamentos tremidos. Era precoce, e eu falava à eles da minha fórmula de criar o mundo, e era tardio, pois que bastava uma expressão alheia mal redigida para provocar o seio do meu eu. Hoje foi difícil validar o coração.

Dia 26

Tem festa na cidade de Marechal Rondon\Pr e eu passo as horas em casa, entretida, de volta ao futuro. No filme, na pizza, saia de cetim, no retorno breve ao Brasil, no sonho que eu era.

Dia 27

Tantas coisas que tenho-temos vontade de transformar, sem nem ser necessário. Mas a gente vive querendo melhorar e as vezes acerta e noutras acerta também, ainda que no caminho pra isso acontecer, existe o velho amigo tempo. Rondon ainda está em festa, gente antiga, quase mitológica me dizendo 'Bom dia'. Hoje percebi que não-simples terei alguém ao meu lado na cama, embora guardo sempre um travesseiro de estrelas. Foi um dia preenchido e alguns mortos desenterrei, mortos que estavam em mim.

Dia 28

Aqui, quando tem festa o município todo se agita, madam matar um boi para cada ano da cidade crescida. Desta vez foram 52 matados, temperados, assados, comidos por quem quisera isto festejar, nestas festas compartilham-se também a tal 'política da boa vizinhança'. Eu apareci por lá, e pela política comi uns quatro bois. Por aqui nçao existe nada do que é meu, foi por isso que eu vim, pra re-criar o que em mim existiu.